Em março, mandamos formulário aberto pra calouras de UFPE, UFRPE e UNINASSAU (campus Recife). Pergunta simples: como foi o primeiro semestre? Recebemos 47 respostas; selecionamos seis vozes com recortes diferentes — interior, periferia, moradia compartilhada, curso técnico, transferência de outra cidade.
Os nomes abaixo são reais; compartilham sobrenome só quando autorizaram. Editamos ortografia leve sem mudar sentido.
Marina, 19 — Engenharia civil, UFPE
"Vim de Caruaru. Achava que Recife era só Boa Viagem porque vi no Instagram. Moro em três no Espinheiro, pago R$ 650 com conta de luz dividida. O ônibus demora quando chove — perdi prova de cálculo por isso e a coordenação aceitou remarcar depois de eu mostrar print do app parado."
"O que ninguém conta: caloura fica com vergonha de perguntar banheiro no prédio certo. Fiquei duas semanas entrando pelo portão errado."
Juliana, 22 — Serviço social, UFRPE
"Voltei pra faculdade depois de cinco anos trabalhando. Tenho filho de quatro. A creche do campus tem fila enorme — consegui vaga só em maio. Antes, estudava de madrugada quando ele dormia."
"Colega de 18 acha estranho eu não ir pro bar pós-aula. Não é superioridade, é logística. Queria que rolasse mais conversa sobre conciliar, menos meme de 'sem tempo pra nada'."
Priscila, 18 — Comunicação, UNINASSAU
"Bolsista integral. Trabalho meio período numa loja de celular. Professora pediu trabalho em grupo presencial num sábado — metade da turma não foi porque faz bico. A gente entregou online mesmo e levou nota menor."
"Sinto que faculdade privada fala muito de empregabilidade e pouco de como pagar o lanche da cantina."
Amanda, 20 — Direito, UFPE (transferida de Maceió)
"Comparo Recife com Maceió sem romantizar nenhuma. Aqui tem mais opção de estágio, mas aluguel subiu desde que cheguei em 2025. Divido kitnet com mais duas — horário de silêncio virou regra escrita na geladeira."
"Biblioteca central lota na véspera de prova. Aprendi a chegar às 7h ou ir pro campus do Agreste, que é mais vazio."
Letícia, 19 — Enfermagem, UFRPE
"Estágio hospitalar começou cedo. Primeira semana vi coisa que livro não prepara. Tive crise de choro no metrô voltando. Procuramos psicóloga da universidade — fila de três semanas."
"Grupo de WhatsApp da turma salvou: avisa quando tem material disponível, quando professor atrasa, quando rola manifestação bloqueando BR."
Camile, 21 — Pedagogia, UFPE
"Sou de Paulista, periferia norte. Demoro uma hora e meia porta a porta. Considero mudar pra república mais perto, mas medo de gastar e perder bolsa Família por endereço — consultei CRAS, processo é confuso."
"Primeiro semestre me ensinou mais sobre burocracia do que sobre Piaget, sinceramente."
O que se repete
Transporte irregular, moradia cara perto do campus, burocracia de bolsa e vergonha de pedir ajuda. Três mencionaram saúde mental; duas citaram dificuldade de fazer amizade fora da bolha do curso.
Conversamos com núcleo de apoio estudantil da UFPE (por email institucional). Resposta oficial: reforço de plantão de orientação em abril e ampliação de horário da biblioteca noturna. Não comentaram fila de psicologia.
Pra quem começa agora
As seis deixaram recados: mapeie rota de ônibus antes da primeira prova; pergunte sobre grupo de calouras do curso; não compare rotina com influencer de 'dia na facul'. Primeiro semestre é sobrevivência inteligente, não filme.
Próxima rodada da série: calouros em Goiânia. Se quiser participar, escreva pra [email protected] com assunto "Carta de calouros".